Selecionados para a IMO 2017, alunos do Colégio Etapa são destaque em matéria da Revista Veja

Os alunos do Colégio Etapa, João César Campos Vargas, Pedro Henrique Sacramento Oliveira e André Hisatsuga, integrantes da equipe brasileira na Olimpíada Internacional de Matemática comentaram sobre a participação na disputa  

Esta turma só pensa naquilo

Por Maria Clara Vieira, Isabela Izidro, Revista Veja – 13 de julho de 2017

Problemas e mais problemas ocupam todos os pensamentos dos jovens que se preparam para a Olimpíada Internacional de Matemática, no Rio. E eles adoram.

Sim, é uma olimpíada. Só que, em vez de quadras e pistas, a disputa transcorre em uma sala a portas fechadas. Em vez de bolas e raquetes, a habilidade é medida por meio de números e fórmulas indecifráveis. Em vez de uniforme, os atletas usam jeans e camiseta. Em vez de público animado, o ambiente requer silêncio total. Estamos falando da Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, em inglês), a feroz competição mundial que, neste ano, vai enclausurar 619 atletas dos cálculos, em 18 e 19 de julho, num amplo salão de um hotel da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do olímpico Rio de Janeiro. A IMO vai muito além do universo restrito dos gênios do pensamento abstrato — e o país escolhido para sediá-la sempre sai ganhando. As escolas mobilizam-se, a torcida pelos atletas locais ganha força e a matemática se beneficia de uma vigorosa polida em sua imagem de matéria que a meninada odeia.

Para o Brasil, especialmente, a reunião de jovens feras da matemática é um sopro de alento em um cenário devastador. Pesquisa realizada pelo Instituto IDados, no Rio, constatou que apenas 0,8% dos estudantes brasileiros alcançou a nota mínima necessária para estar entre os 10% melhores do mundo na última prova de matemática do Pisa, exame que mede o nível dos alunos do ensino médio em escala internacional. Traduzindo: no andar de cima da disciplina, os melhores do Brasil se equiparam aos medianos dos países mais desenvolvidos.

Nadando contra a corrente do mau ensino, a pesquisa acadêmica na mais exata das ciências tem avançado nos últimos anos, impulsionada por uma safra de altíssimo nível — inclusive um medalhista Fields, o carioca Artur Ávila, que recebeu o prêmio, com o peso de um Nobel, em 2014. Dos cinco níveis em que se dividem os países mais qualificados em pesquisa, o Brasil está no segundo, já de olho em uma cobiçada vaga no primeiro, no qual figuram gigantes dos números como Estados Unidos e Coreia do Sul. Alcançar essa posição se deve, em grande parte, ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), referência na área, que se empenha em detectar e burilar talentos e tirar da matemática a sua fama de má. Responsável pela organização da IMO carioca, o instituto acredita que olimpíadas compõem uma fórmula eficiente de reabilitação da disciplina. “Os alunos são apresentados a exercícios divertidos e desafiadores, que os atraem para a matemática”, diz o diretor do Impa, Marcelo Viana, que faz uma ressalva: “Enquanto o Brasil não investir maciçamente nos professores, vai seguir na retaguarda na escola”.

Foi no Impa que se formou o “Nobel” Ávila, 36 anos, ele próprio medalhista de ouro em uma olimpíada internacional — uma constante, aliás, entre ganhadores da Fields: em cada dez integrantes do panteão da matemática, oito estiveram no topo do pódio da IMO em algum momento. O Impa promove disputas nacionais para garimpar as mentes matemáticas nas escolas e a prospecção tem tido bons resultados no mundo das competições. Entre 2010 e 2016, o Brasil passou da 35ª para a 15ª posição no ranking olímpico mundial. O sexteto que integra a equipe brasileira na IMO deste ano acumula, ao todo, 140 medalhas em disputas matemáticas, 76 delas de ouro.

O destaque do Team Brazil é Pedro Henrique Sacramento, paulistano de 18 anos, com sessenta medalhas — 37 de matemática e o restante de informática, física, astronomia e robótica. “Gosto de exatas desde que me conheço por gente. Adoro desafios e os problemas trazidos pelas competições obrigam a pensar diferente, criar estratégias, explorar”, explica Pedro, que em setembro inicia os cursos de ciência da computação e de matemática na Universidade da Pensilvânia, na cidade de Filadélfia. Também está de passagem comprada o mineiro João César Vargas, 19 anos, quinze medalhas de ouro, que disputa sua terceira IMO. Entre competições e baladas — ele é o mais festeiro da turma —, João foi aprovado para estudar matemática na Universidade Princeton, considerada atualmente a melhor nessa ciência.

  

Pedro Henrique Sacramento Oliveira

 

  

André Hisatsuga

 

  

João César Campos Vargas

“Em olimpíadas, os alunos são apresentados a exercícios divertidos e desafiadores, que os atraem para a matemática”, diz Marcelo Viana, do Impa

Além da vaga na IMO, Pedro, João e André Yuji, 17 anos, quinze medalhas douradas, têm em comum a escola de origem: o Colégio Etapa, em São Paulo. Os outros três atletas da “seleção” vêm de escolas de Fortaleza, no Ceará: Bruno Brasil, o caçula, com 16 anos, Davi Cavalcanti, 17, e George Lucas, 18. Às vésperas do grande campeonato, a rotina de estudos dos seis ocupa de oito a doze horas por dia, tempo em que dá para desenvolver cinco ou seis exercícios. “Há dia em que não consigo resolver nenhum”, suspira Davi. Resultado: eles pensam matemática sem parar. “Neste momento, falando com você, estou revirando na cabeça uma questão que não consegui resolver”, confessa André.

Mais antigo e mais prestigiado desafio científico para alunos até o ensino médio, a IMO é produto (este, muito positivo) da Guerra Fria. A primeira olimpíada foi em 1959, na Romênia, e o “internacional” do nome resumia­-se a países sob influência da União Soviética, onde o ensino das ciências exatas desde cedo se entrelaça com acirradas competições escolares. Os Estados Unidos entraram na disputa em 1974, e a IMO então ganhou, de fato, dimensão planetária: no Rio, 115 países estão representados. Russos e americanos continuam a se digladiar pelas posições mais altas do pódio matemático (a equipe americana ganhou a IMO do ano passado), mas China e Coreia do Sul competem cérebro a cérebro pelas melhores posições. Como nos esportes, as equipes nacionais podem incluir estrangeiros. Nascida na China, Qi Qi (pronuncia-­se titi), 17 anos, a única menina do time do Canadá, competiu pelos Estados Unidos no mundial feminino, não conseguiu vaga na equipe olímpica e transferiu-se de laptop e caneta para o lado canadense.

Uma das maiores celebridades a cruzar o tapete da olimpíada carioca nem compete mais, mas suas conquistas arrepiam qualquer candidato a gênio de primeira grandeza: Zhuo Qun Alex Song, 20 anos, nascido na China e criado no Canadá, tem cinco medalhas de ouro na IMO, o que faz dele o recordista de toda a história da prova. Levou um raro “ouro 42”, dado àqueles que atingiram a pontuação máxima nas seis questões do teste. Em 2015, ele acertou todas, sem um deslize. Sobre a gloriosa experiência, Song é modesto: “Não foi a prova mais complicada que já fiz, mas foi a mais intensa”, conta ele, que faz graduação — adivinhe — em Princeton e hoje ajuda a formular a prova da IMO.

Veteranos são recrutados para afiar os poderes dos atletas olímpicos no mundo todo. O próprio Song chegou a treinar com americanos. O costume de convidar estrangeiros é apontado pelo atual treinador dos Estados Unidos, Po Shen-Lon, como um dos fatores para o sucesso americano nas IMOs. “É uma forma de incentivar a troca de experiências entre os melhores cérebros”, explica o técnico, que, sim, tem ascendência asiática, como quase todos do time que capitaneia; é o caso de cinco dos seis atletas do Team USA. “É muito duro o desafio de manter o desempenho alto sob forte pressão”, diz Andrew Gu, 16 anos, que compõe a equipe. A seletiva americana está entre as mais difíceis do mundo — todo ano, são cerca de 300 000 inscritos para a etapa nacional. Bons resultados na IMO são passaporte direto para as melhores universidades. A Rússia, outro tradicional celeiro de talentos, atribui seus excelentes resultados em competições à cultura do país. “Desde os tempos da União Soviética cultivamos a valorização do pensamento abstrato e da resolução de problemas”, explica o treinador russo Nazar Agakhanov.

Assim como nos Jogos Olímpicos do esporte, a história da IMO tem casos de trapaça, intrigas e até matizes políticos. Em 2003, na IMO de Bucareste, comprovou-se que os organizadores passaram as respostas com antecedência para a equipe búlgara; o país não foi desclassificado, no que é visto até hoje como um dos episódios mais vergonhosos da olimpíada. As rivalidades ganham tons dramáticos. Em duas olimpíadas, a equipe brasileira superou a húngara, contumaz ganhadora de ouros, para profundo desgosto do treinador József Pelikán. Quando o panorama virou, ele fez questão de dar ao treinador do time brasileiro um ímã de Budapeste, a capital da Hungria, dizendo: “Ponha na sua geladeira” — frase que virou uma piada interna. A Coreia do Norte, também colecionadora de medalhas, costuma transportar para a IMO sua capacidade de criar encrencas. Na olimpíada de 1991, toda a equipe norte-coreana foi pega colando e acabou desclassificada. Em 2010, repetiu a proeza, com igual punição. No ano passado, em Hong Kong, alcançou o honroso sexto lugar, mas um jovem fugiu e pediu asilo no consulado da Coreia do Sul. A Coreia do Norte não vai participar da IMO no Rio.

A paixão por resolver problemas complexos será testada ao limite nos dois dias de prova. A expectativa dos competidores brasileiros é alta e tem base — adivinhe — na matemática, que deu peso a fatores como fuso horário conhecido, idioma nativo e comida sem surpresas. “Considerando as estatísticas de países-sede, acredito que vamos subir no ranking”, diz Davi. Os jovens terão quatro horas para resolver três exercícios por dia — o terceiro e o sexto são dificílimos. O grau de dificuldade das questões, aliás, oscila entre mestrado e doutorado. Em geral, acertar quatro dos seis problemas garante medalha de ouro. Não basta dominar, como se diz, a técnica. O atleta da matemática também tem de ter criatividade, saber unir conceitos e ser muito, muito rápido. “É uma corrida pelo eureca”, define o professor Edmilson Motta, treinador-chefe da equipe brasileira, com mais de vinte anos de experiência em olimpíadas mundiais. “Quando o eureca acontece, a sensação é maravilhosa.” Se ela se repetir entre os seis brasileiros olímpicos, será um legado e tanto.

Publicado em VEJA de 19 de julho de 2017, edição nº 2539.
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